Espíritos...

A única espécie na natureza que é idiota o bastante para se matar são os seres humanos. Às vezes eu me pergunto se toda essa racionalidade que "ganhamos de Deus" é de fato algo que nos proporciona sermos melhores. Não que eu pense que a racionalidade é uma coisa ruim, mas creio que há muita racionalidade sendo usada por aí para o mal. E parece que nessas horas de "festas de final de ano", os espíritos de porco do natal e ano novo deixam mais à mostra o quanto é possível ser racionalmente mau. Ora, é uma época de benevolência, de ser bom para os outros, e de semear o bem. E é nessas horas que todos aqueles que foram racionalmente maus durante o ano inteiro resolvem se redimir e entregar panetones para todos os famintos de natal. Eu, particularmente, penso que nada disso vai fazer com que estes seres humanos racionais altamente desenvolvidos alcacem o reino dos céus, se é que ele existe. No caso, o reino dos céus é o que estas pessoas racionalmente más o ano inteiro tentam ganhar com os espíritos de porco do natal e do ano novo. De todo modo, eu adoro panetone...

Um corte, uma corte, e uma corneta.

Desvirtuado em um compasso errado
Esquizofrênico e psicótico em sua idéia fixa de sonho, e de ser obsessivo
Totalmente agoniado em sua topografia cerebral
Com um talo de junção opositor altamente desenvolvido, e possessivo
Heróis tentam mudar a parte súpero-anterior do encéfalo
Mas a massa branca e cinzenta de substância nervosa
Aquela que ocupa a cavidade do crânio e é o centro das sensações
Aquela que origina todos os movimentos voluntários
A inteligência, o pensamento e o espírito
De tão calcificada parece não mais possível de transformar
Mas são insistentes os heróis
A ossificação dos tecidos moles pela incrustação de sais calcários
não será mais um problema... não será...

Pablo Milanes - Años

El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos 
el amor ya no lo reflejo como ayer,
en cada conversación, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razón.

Pasan los años y como cambia lo que yo siento
lo que ayer era amor se va volviendo otro sentimiento,
porque años atrás, tomar tu mano y robarte un beso,
sin forzar un momento formaba parte de una verdad.

El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
el amor ya no lo reflejo como ayer,
en cada conversación, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de temor.

Vamos viviendo, viendo las horas que van muriendo
las viejas discusiones se van perdiendo entre las razones,
a todo dices que si, a nada digo que no para poder construir
una tremenda armonía que pone viejos los corazones.

El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
el amor ya no lo reflejo como ayer,
en cada conversación, cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razón.

Eurico, o incansável.

Para todo o tempo que passou de Eurico, ficou a lembrança. Mudou. Desfez-se. Agora tinha outras prioridades. Até porque, precisava pagar as contas, não queria viver um desatino sem sentido de ser, só por ser mais fashion talvez. Mais fashion e mais capitalista. Não conseguiu mais, simplesmente.
Teve que mudar devolta para aquilo que tentou, e tentou com veemência, negar, sua própria essência, ou a razão primeira que considerava ser, de sua existência. Não veio para cá para ser fashion, veio para fazer história. Mas chegou um tempo da vida que Eurico decidiu fazer parte de outro mundo. Por certo mais bonito, mais colorido, fashion. Bastante amigável ao primeiro encontro, sedutor.
Decidiu fazer parte daquilo que um dia tentou condenar, até compreender que não é assim. Não se condena. Resolveu juntar-se àqueles que nem sabia direito o que significava ser. Eurico partiu para os cantos mais recônditos de todos os undergrounds e periferias da cidade. Eurico fugiu da sociedade histórica e decidiu que não queria mais fazer história. Queria seguir o caminho e fosse o que fosse. Eurico cansou de agir.
Mas não era assim, não é desse jeito que se faz. Não se para de agir. Só se age de um jeito diferente. E quando se deu conta, Eurico estava agindo de um modo que não o permitia mais reconhecer-se. Eurico deixara de ser Eurico.
Nessa hora todas as dúvidas empilhadas no cérebro durante anos de conduta diferenciada vieram, e Eurico ficou perdido sem saber o que fazer. Achava que precisaria ficar agindo assim pra sempre. De um jeito fashion e colorido, mas nada humano. De um jeito que só o fazia pensar em si mesmo, e destruir o que aparecesse como obstáculo fosse árvores, pedras, animais ou seres humanos. Eurico se tornou voraz. E triste.
Eurico não gostava de ser assim. Essa não era a essência de Eurico. Eurico era humano, e gostava de ser humano. Eurico queria voltar a ser o que era antes, mas não conseguia ver qualquer possibilidade de mudança. Pobre Eurico, perdido em suas próprias escolhas.
Foi então que ele lembrou-se de todas as mudanças pelas quais havia passado, e foi aos poucos percebendo que bastava ele fazer uma nova escolha para mudar. Ele sabia que sofreria. Nenhuma mudança é sem sofrimento algum. Mas ainda assim, preferia a mudança e a perspectiva do que permanecer no sofrimento fashion e, aparentemente eterno. Eurico não aguentava mais. Era preciso mudar...

Elocução, ê louca ação...

Nem sempre peço permissão para falar. No entanto, penso que em alguns momentos é preciso por em exercício o poder de condescendência. Ser menos intransigente e encontrar sorrisos nas pessoas tristes. Talvez seja o exercício mais complicado. Só não vale esquecer de que complacência não pode significar algo além de uma benignidade para com o outro, portanto, nenhuma complacência poderá transformar a essência de quem quer que seja. Ser gentil com o outro, não significa abrir mão da própria alteridade. Somos todos diferentes e todos iguais. Ser solidário e não desejar ao outro aquilo que não se quer para si não pode ferir a essência do que se é. É complicado e dialético. Porque somos coletivos, e precisamos uns dos outros. E cada um é cada um. E cada todos são cada um. Porque no fim "eu ser o outro e o outro ser eu".

Depalperada Magnífica Opulência

Não precisava passar por isso. Parece que de mãos e pés atados. Lânguido, frouxo. Ouvindo um canto rouco e triste. Sem voz, com um ar de extremo. Andando pelas vielas, debilitado, voluptuoso, mole e extenuado. Parece um esgoto. Não adiantava nem não pensar, porquê vinha o pensamento. Maldito cérebro humano que só faz pensar. E acabava pensando que devia ler menos. Talvez assim conhecesse menos palavras. Talvez assim pensasse menos. Ou não pensasse. Era tudo que queria, mas não dava. O cérebro humano não deixava. Como assim parar de pensar? Não precisava passar por isso, só precisava de um tempo...

Ato ou efeito de desenganar

Sabia que não ia dar em nada, mas mesmo assim
Guardou esperanças numa caixinha e se jogou
Saiu afora num soberbo e penoso sem fim
Sabia que não tinha e não podia
Que tudo estava contra o que acretida
E não queria
Cantares tortos não são aceitos
Nem adianta querer parecer o Cristo
Não tem porquê, não precisam de tortos
Ainda assim é necessário correr o risco
Nenhum não calará o pranto
Nenhum não impedirá o sonho
Mas é triste ver a dificuldade do homem
De ser...

Zona Corada da Pele

Monolítico, homogêneo, impenetrável
Que fratricídios cruéis nestas vivências
Oh tempo de incerteza e maledicência
Segura o teu labéu e segue com a tua mácula
Não tem jeito senão alcançar o intransponível
Que nódoa triste, opróbrio indecoroso
Canso de viver esta ignomínia
Mas não tem jeito

Ao menos, o tempo passa...

hunf

Não diga nada. Não teça comentários.
Não te cabe. Não há porque ser chata.
Inconveniente.
Não diga, não comente.
Não fale.
Não.
Inconveniente.

Chuva...

Não tenho inspiração nestes últimos dias.
A chuva é incessante há meses, já não há mais tantas cores.
Está tudo tão molhado, tão molhado.
Quase apodrecendo. Tudo cinza.
Ah! Que coisa esse tempo. De tristeza, cansaço e chuva.
Se eu ainda tivesse alguma alegria pra encher meus olhos,
mas a única coisa que enche últimamente é a água da chuva.
Chuva, chuvinha. Chuvão. Temporal.
Tempo triste e cinza, temporal.
Não tenho inspiração, e por isso escrevo mal.
Não vou me alongar no meu desabafo molhado.
Mas eu queria tanto que esse tempo passasse logo.

Hesitação

Qualidade de quem é incrédulo
Porque sei lá quanto deseja, morre de medo
Sôfrega, tropeçando em seus próprios soluços, e sustos
Dificuldade de crer, uma suspeita
Quantos escrúpulos, putos
Que geram essa hesitação ansiosa
O medo eterno da dúvida
Desejo de querer o que não se deve
E é consenso, não se deve
Sôfrega, abortiva e eternamente alegre
Em uma tristeza sem fim

Determinações Fetichistas

Alguns percalços semi-alados
Daqueles loucos que vagueiam sem saber
Onde ir, e porque
Semi-gótico
semiótico
É... a eterna dúvida cruel de existir
O enfim chegará talvez num sopro
Ou nas notas de umas cordas tortas
Apelo
Desapego
E muito medo se fundem no anseio
Cosmopolita de ser
Mas hão de convir que não é possível viver
sem questionar
Não é possível pra eles
Então não há como
Não há saída senão responder ao chamado das ondas
Sair percorrendo o chão das acácias
Sei la pra onde
Mas sei porque

o rato roeu a roupa do rei de roma

Diante da contenção de toda a ansiedade foram-se as unhas
A constatação da incerteza deixou ainda pior
Já quase começam a irem-se os dedos
Ai que coisa, que coisa
Corre, pega aquela flor amarela
Mas toma cuidado
Toma...

O Impulso

Ela não queria que fosse. Mas seria.
Mas ela era tão, tão irredutível. Tão convícta.
Ela não queria que fosse.
Mas não adiantava nada o não querer. Porque seria.
Deu pena. Partiu o coração de muitos vê-la.
Tão convícta, cheia de suas veemências, certa de si.
Impetuosa. Eloqüente.
Deu pena. Ela não queria. E foi.
Arrebatador e intenso, foi.
Apareceu no rigor de um impulso. E foi.
E agora já era.

Gatos...

Queria ter a agilidade dos gatos pra sair em parcours infindáveis pelos mundo
Andar por sobre telhados, muros e floreiras
Pular em mil cachoeiras
Tentar encontrar o fundo
Queria ter a coragem dos gatos e sair sem lembrar de nada
A cada morada uma família
A cada noite um dia
A cada parada uma amada
Queria ter tudo isso, e nada.

Seco.

Todo seco, feito um galho d´árvore no inverno. Bem seco.
Tão seco quanto o sabor amargo de um deserto.
Seco e Frio. E amargo.
Um gosto de desgosto. De guarda-chuva. De asco.

A volta dos que não foram

Voltar sem ter voltado
Nos ombros um coração cansado
Nunca calado em seus calos
Sem medo da vida, e da morte
À própria e única sorte
De ir, sem nunca ter ido
Tentando encontrar o nunca encontrado
Mesmo sabendo ser impossível
Mesmo perdido e suado
Olhando tudo que nunca foi visto
No mesmo e velho círculo quadrado

Altruísmo Pagão

Tarde de outono. O sol quente e o ar frio se mesclam quase como a dança de um jovem casal apaixonado. Um começo, ou recomeço. Um começar denovo. O mesmo caminhar, pisando no mesmo chão. Mas de um jeito diferente. O mesmo barco, a mesma história. Tudo junto. Guardado como um segredo debaixo dos braços desta berrante realidade. Segredo seguro, determinado. Histórico. Um começar denovo. Com novos passos dentro daquele caminhar, desta vez com os olhos erguidos. Desta vez com os braços abertos. Desta vez transformando o medo em desejo, partindo em busca da realização. Se ela virá? Dizem que para morrer basta estar vivo. E se a vida humana é um grande processo, não é a morte sua maior realização?

Tarde de outono. O mesmo caminhar pisando no mesmo chão. Desta vez com os braços abertos, os olhos para o alto e o desejo nas mãos. Ainda que desconfortante, a cadência nos versos denuncia a consonância instrumental da orquestra, e as vozes da libertação lançam gregorianos tortos. É o berrante da realidade, perto da explosão mais pura. E mais dura. Seria o olho do furacão? A que ponto o medo do ameaçador diabo vermelho nos levou? Desta vez, diferente.