Manifestação de um efeito real

outrora os dias não passavam tão rápido assim
os dias de sol me faziam bem, e os dias escuros me deixavam triste
eu gostava da paz que vento na cara dava nas infindáveis brincadeiras de pega-pega
hoje o vento me dá alergia
e o sol me deixa doente

outrora os dias eram férteis de alegria juvenil, dias inconstantes e aventureiros
e os olhos senis que me olhavam, que mais senis ainda me olham hoje
sonhavam com um mundo lindo pra mim
eu me lembro desse mundo, feito de doce
hoje o chocolate me engorda
e o mundo é real

 photo: Frida, by Gloria Goulart

pé de galinha cisca pra trás

Os pés caminham buscando o encontro do revés
Os olhos brandos vêm bradando a pouca tinta dos pincéis
Não sei se é falta de coragem que me falta, ou dos bordéis
Tantos bordados, atordoados de coronéis
De coro, decoro, rouco e bruto
e assassinos assassinados vêm fugindo em seus tonéis
Tonéis de vinho tinto e sangue, arrotado nos anéis

Anéis de ouro em pena, e quantas galinhas são cruéis?

Revés encontro dos pés que buscam o caminho
Pincéis pintando brados olhos brandos
Bordéis de falta de coragem, que me falta, que me falta
Coronéis bordados, tantos atordoados
Brutos coros decorados de tonéis de vinho assassinados
e arrotos de anéis de sangue

Penas de galinhas cruéis, e quanto anel de ouro é pena?


                                    Photo: Amorfa. Claudio. G. Araujo. 2010.

Louvania queria amarelar

Louvania ia escrever um poema. Um poema amarelo, queria marcar a sua saída da fase branca. Cobraram-lhe desde cedo a perspicácia, e claro, não poderia ter deixado de desenvolver alguma. Agora se encontrava nessa fase, branca. E nem era porque queria, mas porque lhe disseram que era desse jeito. E não conseguia compreender porque não conseguia sair disso, como se quase se acostumasse e fizesse parte daquela alvisse toda. Louvania sabia que era impossível não fazer parte. E toda a perspicácia lhe fugia nessas horas. Fugaz, tomou a decisão de amarelar, e decidiu que marcaria isso com um poema amarelo. Tentou e continunou tentando escrever um poema amarelo; mas, sem se dar conta, a tinta branca já tomara conta de seus dedos. O papel embranquecido, aflito em seu vazio, gritava por sobre todas aquelas letras, que não podiam amarelar. Louvania não entendia. Ela não compreendia porque aquilo havia acontecido justamente com ela. Buscava usar sua perspicácia escura e sombria, que muitas vezes causava medo naqueles que cruzavam seu caminho, para tentar compreender porque não conseguia amarelar. E ainda assim não descobria, e tudo continuava cego, como a cegueira branca de Saramago. Alvo como a neve.


                                                               Photo: San Telmo / Buenos Aires by Gloria Goulart

Estrangeirou-se um dos meus pontos equidistantes.

É compreensível sentir-se estranho em um lugar que pertence tanto a história da tua vida? Não sei. Por mais que mudem os rostos, por mais que os cheiros e a disposição dos móveis não seja a mesma, ou ainda que todos eles tenham sido transformados de algum modo, o lugar em si continua igual. As paredes todas continuam concretadas nos mesmos lugares. Mas ainda assim, eu me pergunto o quanto dessa identidade incrustada em mim e de todos estes valores que me foram passados por este lugar, e pelas pessoas com as quais eu convivi nele, me pergunto se, como e porque mudaram. E aí sim, sou estrangeiríssima. Me encontro longe daquilo que me pertence, distante daquilo que fez parte da minha trajetória, que eu construí e que está presente no meu processo histórico. Estou aqui e está frio. Não me reconheço mais neste lugar, embora faça parte dele. Sinto frio, e me pergunto se me sentiria mais ou menos estrangeira não fossem estas paredes concretadas todas no mesmo lugar. Seria preciso destruir toda essa concretude?

                                                                  Photo: Gloria Goulart. Paris, 2010

Prejuizos Modernos I

De manto negro andava afoito por entre o bosque dos incansáveis
buscava atrás dos musgos e das árvores infindáveis
um gosto de extremidade branca e louca
que pudesse tirá-lo daquela insanidade monetária e rouca
de um modo fugaz e viril
por entre as tocas de seu covil
por entre os mares de azul anil
por entre os charcos...
Saía sempre que podia a caminhar naquele bosque de cansado passado
a buscar sempre aquilo que não havia ainda sido encontrado
em virtude de sua ânsia de querer sempre e sempre
fazer com que as coisas boas durassem eternamente
e que as coisas ruins fossem de cor transparente
por entre as mentes coloridas
por entre as gentes preto e branco
pelas enchentes...
Tentava, como um alquimista, movimentar a matéria
um gosto de transformar corria em sua artéria
nem sabia ainda se era atrás de transformar pedra em ouro
ou de transformar todos vocês em outro
outro lugar de cheiro de rosas
outras relações de chocolate
outras reações de sentimento humano
por entre os matos de outras personalidades


Hortênsio, o irresoluto

Hortênsio andava em meio as plantas descalço porque gostava do ar frio das manhãs de primavera, do cheiro de plantas e da grama molhada dos jardins de Austero. Adorava tanto essa época por considerá-la de infinitas possibilidades, sem contar que Austero ficava linda naqueles dias longos. Hortênsio gostava do cheiro da terra e esse era o tempo de tocá-la. Mexia na terra como se fizesse amor. E ele realmente sentia amor, e trocava amor. Adorava a terra, e os frutos dela. Hortênsio pensava ter muitos amigos, e de certa maneira sentia-se dono de todas aquelas personalidades. E eram tantas. E tão estanques. Queriam tudo e se perdiam entre o vazio de prédios de luxo e fanfarras dissonantes. Conheceu em sua curta vida muitas pessoas de particularidades mortas, que ele mesmo levou consigo quando pediu a morte. Em tempos de angústia virava todos os monstros de sua própria personalidade, e só aí Austero tornava-se pequena demais para suportá-lo. Possuía tantas personalidades amigas e só um fantasma. Carregava em si o medo de nunca mais sorrir, e por isso vivia a rir como uma Hiena louca dona de uma voz rouca. Falava bem, o eloquente. Hortênsio tinha tanto mérito. Mas aqueles tantos monstros que lhe tomavam a consiência o faziam transparecer todo o lado obscuro de seu ser. E seu viver se tornou insuportável. Já longe das plantas, e do cheiro da grama. Por entre tantos prédios de luxo e fanfarras dissonantes soltou um grito desalmado de terror: " - Não sou humano! ". E fugiu. Fugiu correndo para a praia sentir o cheiro do mar e ouvir as ondas com um pouco de areia por entre os dedos do pé. 

Foi embora com a morte. Lá pra um céu onde gatos e passarinhos convivem em total harmonia, por terem, igualmente, todas as suas necessidades básicas supridas. Todas aquelas mais necessárias. 



Foi... E virou chuva.

De música no jardim...

Meio caído de paraquedas, chegou ao centro. Estonteado com tantas luzes, meio ao relento, sonhou. Tantas vitrines, todas vermelhas. Moças bonitas e moças feias disputam espaço com cisnes. E barcos. Quantos canais por entre prédios tortos, e pessoas tortas por entre ruas mais tortas ainda. E turistas. Já não sei mais por onde ir nessa cidade (tragicidade), felicidade da qual já vou partir. Bondinhos azuis, sempre a surgir, que te descobrem um mundo novo, onde vivem coelhos e os mais diversos pássaros. Algumas flores e muitas plantas, são todas feitas. Mas fora isso, isso fora. Do lado de dentro é outra história que se passa. Onde em sua sujeira vivem felizes ratos, de meses, anos, de fatos e fiascos. Seres humanos, seres urbanos, habituados, acomodados. Que gente doida, que estranhas gentes, e que estranhas mentes. Vibrando em longas discussões, com um mal de garganta grotesco e rude, que se tornam doces palavras em variadas horas, escolhem não fazer sensato na hora da despedida. Já não sei mais como me despedir de ti, e de toda tua tragicomédia monárquica. Não sei mais definir a sensação de partir. Uma última e encantadora cavalgada no cavalo prateado. Uma última música de jardim. E a certeza de que toda despedida compreende também uma chegada... (Escrito em 29 de Abril de 2010)


Photo by Gaspa.

Paris sous la pluie

Chuva, para de trazer trovão
Para de fazer granizo do meu coração
Assim fico triste, e fico sem chão
Com medo de sorrir em vão
E raiva.



Uma nota que não pôde ser tocada

prelúdio de amor que ficou sem enredo
que só pôde tocar na surdina, em segredo
o reflexo da tua beleza
não se manifesta sozinho em meus passos
faz-me mal, me oprime
me causa uma angústia mortal, imoral
me mata e me encanta com tanta destreza
me fere a alma de tanta incerteza
me faz lamentar o destino
fatalidade cruel determinante
um ausente e físico desatino
uma presença constante de intenção de arte
de um esboço do qual querendo ou não eu faço parte
prelúdio de amor emaranhado
encalacrado na história, em segredo
tecendo um véu de ardil encrencado
buscando privar-se de sentir medo
quanta solidão nesse falso remendo
sustentando essa mola oculta
resignado sob o véu de um segredo
se encontra e se perde em seu termo
sem desfecho ou desenlace
lamenta o destino


Mais vale um pássaro na mão que dois voando

Um desengano... Um desabafo.

Um corpo estatelado no chão.

Dois passos... Dois pássaros

De olho em vão

Vão passando

Voando em busca do eterno





Bínne Angelo, o maltrapilho

Dilacerado, refugia-se no absoluto da arte. Seu nome: Bínne. Vive nos escombros de uma solidão impossível de ser curada. Impossível porque ainda não se descobriu como fazer o tempo voltar para tentar mudar certas escolhas. Quantas coisas teria repetido, quantas mais teria evitado. 
Bínne anda pensando sozinho no meio de um monte de fanfarrões. Esse é basicamente o resumo de sua história. Petrificado, traz consigo o destino de um conjunto inteiro. Anda solitário, mesmo sendo de uma personalidade intrínsecamente coletiva. Seus olhos se procrastinam muitas vezes em sua impotência perante a realidade, mas jamais deixam de olhar o mundo e os seres humanos que nele habitam. 
Bínne pensa solitário em meio aos fanfarrões de uma moderninade de solidão. Lida desde cedo com a rejeição, e mesmo assim, ainda sente uma certa angústia, um leve gosto de sangue. Bínne pesa solitário mas faz das tripas coração pra conseguir mostrar ao seres humanos que ainda é possível ser diferente. Bínne se desespera. Dilacerado, refugia-se no abraço fraterno da arte. Bínne tenta gritar harmonicamente.


"Quem sabe um dia te ouvirão, Bínne, meu amigo..."


O Berro da Realidade

Bastardo.
Nascido ilegalmente.
Ilegal de nascimento.
Impuro de nascimento.
Ilegítimo de nascimento.
Cão sarnento que não pertence à raça alguma.
Impróprio, condenável bastardo.
Impossível de exercer o "ser" que não seja nesta condição.
Porque "ser" bastardo se sente na sarna da pele.
Ser ilegal, imoral, impuro, ilegítimo, impróprio, indecoroso.

Bastardo obsceno de um sexo que não deveria ter existido.
Indecente, vergonhoso. Escandaloso bastardo. 

Imoral de nascimento.
Bastardo.

Voltage Regulator

Desesperada, desinteressada, estanque
Abriu seu caminho de armas sutis
Atordoada, subiu fumegante
E como fosse num palanque, se abriu
Sua cortina já não mais podia cobrir
Pois aquilo que encobria jamais deixou de existir
Era sabido que um dia o império ia ruir
Não esperava assim tão farto
Do alucinógeno fez parto
E aquele aquebrantado coração não mais podia amar em vão
Não sei se foi um batizado de loucura
Mas a amargura no meu peito sentiu seu perdão
Perdão por nem saber o que havia feito
E se havia feito, e se não, senão...
Atordoada, desesperada, errante
Não mais podia não ouvir a decisão
um tempo que já não mais existia, ou era um novo que surgia
Com certa e estranha atenção
Mal entendi, mal entendeu, mal entenderam
E quem é que entende mesmo essas coisas do coração?
Desinteressada, atordoada, fumegante
Caminha insóbria num mundo de tentação
ouvindo o chamado e o canto dos que não dormem
buscando suprir os desejos de proteção
e insegurança... e quase alcança...

Mas é passageiro, é só passageiro...

Fascination - The land of freedom

The only thing missing here is a nice beer
I am not perfect, you aren´t either
What else matters?
We´re human beings, we make mistakes
Don´t analyze all you can give
I miss you when you´re not here
Even if we may never be perfect together
Don´t think twice, just make me laugh
You may not be the first, or even the last
We loved before, we´ll sure love more
You may not be the only
But you´ll be forever this thing we build up together...







[Photo: Gloria Goulart - Hombre Universal / J. Gurvich (Museo Gurvich - Montevidéo)]

Politik Kills

É uma falácia. Pensar que os problemas se solucionaram "sozinhos" no passado, e portanto irão se resolver no futuro, é uma falácia. Tentam nos enganar dizendo que o perigo dos conflitos militares devastadores pertence ao passado. Mas é mentira. Espera-se que acreditemos que todos os problemas irão se resolver alegremente pelo "desenvolvimento" e "modernização". A grande vencedora, que vai superar qualquer obstáculo ou dificuldade que a humanidade venha enfrentar, é a tecnologia. É mentira. É uma falácia. Esse termo mágico "crescimento", tomou forma de solução, e ao lado do engano do "desenvolvimento" deparou-se com sua maior contradição, um defeito interno - o desperdício. E aí então resolve-se inventar o sofisma do "desenvolvimento sustentável". E aí toda essa idéia de "revolução verde" começa a fazer sentido para os seres humanos. Mas é mentira. Eles continuam esperando que acreditemos que os problemas irão se resolver sozinhos e alegremente, só que agora é por essa tal coisa verde aí, esse "desenvolvimento sustentável". É uma falácia. Sustentabilidade só é possível com coerência. E desenvolvimento com sentido de crescimento não se coaduna com sustentabilidade. Sustentável deve ser o metabolismo imperativo entre a sociedade e a natureza. E isso nós fazemos desde que temos consciência, desde que começamos a pensar e trabalhar para sustentar nossas necessidades mais básicas, desde que começamos a fazer a história da humanidade. Mas ainda estou buscando entender porque deixamos que esse socio-metabolismo do qual somos todos parte seja controlado por um sistema de relações que nem sequer considera qualquer parcela de humanidade...



politik kills
politik need votes
politik needs your mind
politik needs human beings
politik need lies
thats what my friend is an evidence politik is violence
what my friend is a evidence politik is violence

politik kills
politik use drugs
politik use bombs
politik need torpedoes
politik needs blood
thats what my friend is an evidence politik is violence
what my friend is a evidence politik is violence

politik need force
poltik need cries
politik need ignorance
politik need lies
politik kills

SOMATO - Sexta-feira, 15 de Janeiro às 19h30 
na Escola de Música Rafael Bastos 
(Don Jaime Câmara, 202 - Centro/Fpolis)

La musique dans mes yeux



Andando pelo universo do sentir encontrei uma vida anímica.
Não, não falo de uma linguagem humana qualquer.
Falo de carregar a alma humana sensificada. Falo de sentir.
Como quando sinto aquela liberdade e me arrepio com o vento no rosto, fazendo o cabelo desgrenhar.
Música minha, não sei mais ser sem ti, porque descobri que só sinto minha alma quando estou contigo.


photo: Gloria Goulart (dez 2009)

My beloved favorite red hair...

Terminou. Terminou para começar outro. Mas muitas coisas não terminaram, muitas coisas se transformaram... Várias delas continuaram. Várias boas, várias ruins. Várias. E o tempo está passando. E eu também, como você... Estamos passando. Tenho a impressão de que as pessoas perderam o gosto de "estar passando", e agora só se preocupam com o fim, e não com a intensidade de "estar passando".
Estes últimos anos têm sido difíceis. E pra você como foram? Às vezes gostaria de saber como você está se sentindo em relação à todo esse tempo... Este que passa, e este que passou.
É. Estamos passando. E isso significa que tudo está passando. Isso pode ser muito bom. Será que ainda vamos bater em algum cruzamento?
Primeira vez que falo com você neste ano. 2010. Dizem que em 2 anos o mundo acaba... Bem, tudo termina. Termina pra começar outro. E ultimamente eu até queria fazer parte dessa "finitude" toda, e conhecer o outro lado. Me diz, não tens também vontade de saber como é o outro?


Passou. E vamos passando. Tudo vai ser diferente e igual ao mesmo tempo, daqui pra frente com mais audácia quem sabe... 










http://www.excelsior-recordings.nl/luisterpaal/  - KARTASAN - Descoberta do ano! (Passado!)