Hortênsio, o irresoluto

Hortênsio andava em meio as plantas descalço porque gostava do ar frio das manhãs de primavera, do cheiro de plantas e da grama molhada dos jardins de Austero. Adorava tanto essa época por considerá-la de infinitas possibilidades, sem contar que Austero ficava linda naqueles dias longos. Hortênsio gostava do cheiro da terra e esse era o tempo de tocá-la. Mexia na terra como se fizesse amor. E ele realmente sentia amor, e trocava amor. Adorava a terra, e os frutos dela. Hortênsio pensava ter muitos amigos, e de certa maneira sentia-se dono de todas aquelas personalidades. E eram tantas. E tão estanques. Queriam tudo e se perdiam entre o vazio de prédios de luxo e fanfarras dissonantes. Conheceu em sua curta vida muitas pessoas de particularidades mortas, que ele mesmo levou consigo quando pediu a morte. Em tempos de angústia virava todos os monstros de sua própria personalidade, e só aí Austero tornava-se pequena demais para suportá-lo. Possuía tantas personalidades amigas e só um fantasma. Carregava em si o medo de nunca mais sorrir, e por isso vivia a rir como uma Hiena louca dona de uma voz rouca. Falava bem, o eloquente. Hortênsio tinha tanto mérito. Mas aqueles tantos monstros que lhe tomavam a consiência o faziam transparecer todo o lado obscuro de seu ser. E seu viver se tornou insuportável. Já longe das plantas, e do cheiro da grama. Por entre tantos prédios de luxo e fanfarras dissonantes soltou um grito desalmado de terror: " - Não sou humano! ". E fugiu. Fugiu correndo para a praia sentir o cheiro do mar e ouvir as ondas com um pouco de areia por entre os dedos do pé. 

Foi embora com a morte. Lá pra um céu onde gatos e passarinhos convivem em total harmonia, por terem, igualmente, todas as suas necessidades básicas supridas. Todas aquelas mais necessárias. 



Foi... E virou chuva.

De música no jardim...

Meio caído de paraquedas, chegou ao centro. Estonteado com tantas luzes, meio ao relento, sonhou. Tantas vitrines, todas vermelhas. Moças bonitas e moças feias disputam espaço com cisnes. E barcos. Quantos canais por entre prédios tortos, e pessoas tortas por entre ruas mais tortas ainda. E turistas. Já não sei mais por onde ir nessa cidade (tragicidade), felicidade da qual já vou partir. Bondinhos azuis, sempre a surgir, que te descobrem um mundo novo, onde vivem coelhos e os mais diversos pássaros. Algumas flores e muitas plantas, são todas feitas. Mas fora isso, isso fora. Do lado de dentro é outra história que se passa. Onde em sua sujeira vivem felizes ratos, de meses, anos, de fatos e fiascos. Seres humanos, seres urbanos, habituados, acomodados. Que gente doida, que estranhas gentes, e que estranhas mentes. Vibrando em longas discussões, com um mal de garganta grotesco e rude, que se tornam doces palavras em variadas horas, escolhem não fazer sensato na hora da despedida. Já não sei mais como me despedir de ti, e de toda tua tragicomédia monárquica. Não sei mais definir a sensação de partir. Uma última e encantadora cavalgada no cavalo prateado. Uma última música de jardim. E a certeza de que toda despedida compreende também uma chegada... (Escrito em 29 de Abril de 2010)


Photo by Gaspa.