Louvania queria amarelar

Louvania ia escrever um poema. Um poema amarelo, queria marcar a sua saída da fase branca. Cobraram-lhe desde cedo a perspicácia, e claro, não poderia ter deixado de desenvolver alguma. Agora se encontrava nessa fase, branca. E nem era porque queria, mas porque lhe disseram que era desse jeito. E não conseguia compreender porque não conseguia sair disso, como se quase se acostumasse e fizesse parte daquela alvisse toda. Louvania sabia que era impossível não fazer parte. E toda a perspicácia lhe fugia nessas horas. Fugaz, tomou a decisão de amarelar, e decidiu que marcaria isso com um poema amarelo. Tentou e continunou tentando escrever um poema amarelo; mas, sem se dar conta, a tinta branca já tomara conta de seus dedos. O papel embranquecido, aflito em seu vazio, gritava por sobre todas aquelas letras, que não podiam amarelar. Louvania não entendia. Ela não compreendia porque aquilo havia acontecido justamente com ela. Buscava usar sua perspicácia escura e sombria, que muitas vezes causava medo naqueles que cruzavam seu caminho, para tentar compreender porque não conseguia amarelar. E ainda assim não descobria, e tudo continuava cego, como a cegueira branca de Saramago. Alvo como a neve.


                                                               Photo: San Telmo / Buenos Aires by Gloria Goulart

Estrangeirou-se um dos meus pontos equidistantes.

É compreensível sentir-se estranho em um lugar que pertence tanto a história da tua vida? Não sei. Por mais que mudem os rostos, por mais que os cheiros e a disposição dos móveis não seja a mesma, ou ainda que todos eles tenham sido transformados de algum modo, o lugar em si continua igual. As paredes todas continuam concretadas nos mesmos lugares. Mas ainda assim, eu me pergunto o quanto dessa identidade incrustada em mim e de todos estes valores que me foram passados por este lugar, e pelas pessoas com as quais eu convivi nele, me pergunto se, como e porque mudaram. E aí sim, sou estrangeiríssima. Me encontro longe daquilo que me pertence, distante daquilo que fez parte da minha trajetória, que eu construí e que está presente no meu processo histórico. Estou aqui e está frio. Não me reconheço mais neste lugar, embora faça parte dele. Sinto frio, e me pergunto se me sentiria mais ou menos estrangeira não fossem estas paredes concretadas todas no mesmo lugar. Seria preciso destruir toda essa concretude?

                                                                  Photo: Gloria Goulart. Paris, 2010