Estrangeirou-se um dos meus pontos equidistantes.

É compreensível sentir-se estranho em um lugar que pertence tanto a história da tua vida? Não sei. Por mais que mudem os rostos, por mais que os cheiros e a disposição dos móveis não seja a mesma, ou ainda que todos eles tenham sido transformados de algum modo, o lugar em si continua igual. As paredes todas continuam concretadas nos mesmos lugares. Mas ainda assim, eu me pergunto o quanto dessa identidade incrustada em mim e de todos estes valores que me foram passados por este lugar, e pelas pessoas com as quais eu convivi nele, me pergunto se, como e porque mudaram. E aí sim, sou estrangeiríssima. Me encontro longe daquilo que me pertence, distante daquilo que fez parte da minha trajetória, que eu construí e que está presente no meu processo histórico. Estou aqui e está frio. Não me reconheço mais neste lugar, embora faça parte dele. Sinto frio, e me pergunto se me sentiria mais ou menos estrangeira não fossem estas paredes concretadas todas no mesmo lugar. Seria preciso destruir toda essa concretude?

                                                                  Photo: Gloria Goulart. Paris, 2010

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