Louvania queria amarelar

Louvania ia escrever um poema. Um poema amarelo, queria marcar a sua saída da fase branca. Cobraram-lhe desde cedo a perspicácia, e claro, não poderia ter deixado de desenvolver alguma. Agora se encontrava nessa fase, branca. E nem era porque queria, mas porque lhe disseram que era desse jeito. E não conseguia compreender porque não conseguia sair disso, como se quase se acostumasse e fizesse parte daquela alvisse toda. Louvania sabia que era impossível não fazer parte. E toda a perspicácia lhe fugia nessas horas. Fugaz, tomou a decisão de amarelar, e decidiu que marcaria isso com um poema amarelo. Tentou e continunou tentando escrever um poema amarelo; mas, sem se dar conta, a tinta branca já tomara conta de seus dedos. O papel embranquecido, aflito em seu vazio, gritava por sobre todas aquelas letras, que não podiam amarelar. Louvania não entendia. Ela não compreendia porque aquilo havia acontecido justamente com ela. Buscava usar sua perspicácia escura e sombria, que muitas vezes causava medo naqueles que cruzavam seu caminho, para tentar compreender porque não conseguia amarelar. E ainda assim não descobria, e tudo continuava cego, como a cegueira branca de Saramago. Alvo como a neve.


                                                               Photo: San Telmo / Buenos Aires by Gloria Goulart

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