Closet

Das várias maneiras de escrever que eu uso, uma das minhas favoritas é escrever pra você. É você mesmo. Especificamente. Talvez porque me sinta mais segura escrevendo para alguém concreto, por mais abstrato que você seja. Hoje escrevo só pra passar o tempo, no meio destas ondas enormes de trabalho. Como nos engolem essas ondas de trabalho, não é mesmo? Não sei, mas sempre vou ter aquela sensação de que os seres humanos perdem suas vidas por causa de seus trabalhos em nome da produção de riqueza, que nem chega perto deles. Serão mesmo os ricos imortais? Imorais eu sei que eles são... Algumas vezes eu queria ser engraçada, mas ninguém ri. Outras vezes eu queria só ser uma ultra mega compositora de peças eruditas contemporâneas. Não encontro mais os nexos entre o ser e o ser. Ainda mais nesses momentos de engolimento pelo trabalho. Outro dia li numa revista que a maior parte do sucesso de alguém se deve ao tempo gasto de treino focado naquilo que se deseja ter sucesso. Mas como se dedicar à uma só atividade no meio de tantas necessidades e opções? Eu fico imaginando como pode virar uma super bailarina (ou um super bailarino) uma garotinha (ou um garotinho) que sonha com isso, mas precisa trabalhar na lavoura desde pequena porque não tem opção. Que tempo ela tem pra se dedicar a dança? Só lhe resta mesmo se dedicar àquilo que lhe é imposto socialmente. Me perco entre o ser e o ser. Não que eu pense que só os mais abastados conseguem o que querem, porque veja bem, eles tem um problema de outra ordem. Eles se perdem no meio de tantas opções, e ficam estagnados entre seus anti-depressivos. O ser não é mais o que é. Ou é o que necessita, ou já tem todas as necessidades supridas e perdeu o sentido de ser. Acho que este modo de viver eleva aquilo que considero pior no ser humano: a vontade de ser o que não é, e a falta de coragem pra admitir o que é. Pois ainda assim, perdida entre os seres que são e não são, ou apenas estão sendo, me pergunto: quando é que vamos todos sair do armário?!


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